A Bailarina : lote2

A Bailarina

um homem entra no palco. Black Out

você entraria no teatro, sentaria em sua cadeira e veria um homem de pé, no meio de uma série de baldes
o homem não leria um texto, esse texto não estaria no programa, ninguém teria acesso à ele, esse texto não deveria ser dito, mas eu estou aqui dividindo palavras, como um esboço de um pensamento que tive, e apresento esse texto como um convite a um pesar, para nos perdermos no peso dos meus pensamentos

essa performance é um murmúrio, um sussurro que tenta romper o silêncio, ou um silêncio

esse murmúrio me surgiu por conta de um acidente
na verdade, eu não deveria estar aqui
embora esse acidente seja de minha responsabilidade, eu estou aqui no lugar de outro,
essa performance é sobre tudo, menos sobre mim
é sobre uma coleção de ascensões e quedas d'água
sobre verticalidades
sobre um rápido desaparecimento por trás de uma breve cortina d'água
sobre pesares
sobre antes durante e depois das quedas
sobre um pequeno mundo que se tomba
desaba
deságua
deságuam fluxos de corpos, rios de lágrimas,
deságuam sêmens que fertilizam o solo impenetrável do teatro,
deságuam insurgências, repressões, armas d'água de efeito moral
deságuam efeitos de realidade, ficcionalidades
deságuam esculturas dançantes,
deságua uma fonte ready made
deságuam a partir de uma pergunta básica,
sobre o movimento de um corpo no espaço,
sua gravidade,
seu peso
penso
logo
peso

penso na bailarina,
a musa de alguns filósofos e poetas que tentaram se aventurar na dança
um poeta, certa vez, no final do século XIX, disse que a bailarina é aquela capaz de criar formas espiraladas, temas giratórios em um jogo de luzes, nos quais enxergaríamos borboletas e pétalas
a bailarina está sempre ali no lugar de outra
a bailarina é o corpo liberado de peso
só a bailarina suporta o peso real da bailarina
para que ela tenha a aparência de leveza
a bailarina salta e se desmancha no ar
a bailarina se torna irreal surreal
a ela também falou Zaratrusta
afinal
todo mundo tem só a bailarina que não
a bailarina contém a crise de representação da dança, da arte
se você disser que não vê nenhuma bailarina aqui, você nega
se você disser que viu uma bailarina aqui, você afirma um delírio

como ir além das negações e afirmações

escute quando não há nada para escutar
olhe quando não há nada para olhar

durante esse esboço, na sua frente, você verá apenas água e baldes,
e um único gesto,
nele uma infinidade de memórias
que se erguem para o nada
para a imagem que fizéramos da bailarina
essa imagem
que
agora caiu
ruiu
Lamentou o Imperador à Imperatriz
chorei

texto e performance
Bruno Freire

conversas, vinhos, contribuições e afins
Theo Craveiro
Amanda Antunes
Daniel Fagundes
Rodrigo Andreolli
Sheila Ribeiro
Sheila Areas
Carolina Mendonça

agradecimento
residência Lote#2
Free to Fall

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Rua da Consolação x Alameda Tietê
imagens por Theo Craveiro
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Teatro Cultura Inglesa/Free to Fall