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Por quê um projeto de residência?

Já há algum tempo venho especulando sobre outros modos de treinar dança e sobre o que a dança produz além de coreografias. Inquietações que me levaram a desenvolver projetos como a ‘plataforma Desaba’ e ‘A piece...together?’ (em colaboração com as coreógrafas Thelma Bonavita e Paz Rojo, respectivamente). Na verdade, tenho me perguntado sobre a relevância de treinar isso ou aquilo. Quando falamos sobre treinamento em dança nos dias de hoje, devemos considerar que a dança já vem exercitando outros músculos, além daqueles entre a pele e o osso, há bastante tempo. “A mente é um musculo”, como bem colocou Yvonne Rainer – “The mind is a muscle”. Então proponho exercitar nossos corpos evitando a cisão corpomente. Não há separação. The mind is a muscle and the muscle is mind. Mind this gap !

Assim, treinamos nossos músculos através de aulas, palestras, conversas, roupas, comidas, filmes, espetáculos, músicas, livros, etc. Treinamos com tudo aquilo que interagimos no mundo. Em muitos casos, nem percebemos com o que exatamente estamos interagindo. Existem muitos aspectos de uma experiência que nos escapa a consciência. Somos limitados, parciais, somos a medida dos nossos investimentos em expandir nossa percepção, na tentativa de esgarçar nossas coleções, nossos saberes. “Percepção não é algo que acontece em nós, é algo que fazemos” (Alva Noë). E neste fazer, podemos tornar nossos músculos mais elásticos, identificando habilidades e propriedades.

Me interesso pela criação de espetáculos, de performances, me interessa o corpo, a dança, a coreografia. Me interesso por comunicação e oriento minha prática problematizando estes conceitos. Acabo coreografando minha vida para transitar e tencionar as possibilidades desta mídia chamada corpo. Minhas coreografias buscam criar contextos, situações, residências, espetáculos, projetos, trânsito de informação, reuniões, conversas, administração, sites, design.

Ao longo do meu percurso em dança, tenho encontrado, dançado, conversado, observado, admirado e colaborado com vários artistas nacionais e internacionais. Artistas que me ajudam a continuar me entusiasmando e odiando ser artista. Sim, amor e ódio, oscilando entre as inúmeras variações deste contra senso.
Cada projeto/criação me lança adiante e me reposiciona também para trás. Que bom que o quê fazemos contém a possibilidade de nos reconfigurar em outras direções, em um percurso não-linear. Na verdade, não se trata do quê fazemos, mas de como fazemos. Penso nos “comos” mais do que nos “o quês”.

Pensando assim, me perguntava como delinear um contexto que pudesse me atirar numa outra espacialidade, promover cruzamentos com outros artistas, conhecer outros modos de pensar e fazer, de se relacionar, de conviver. Me seduzia o frescor de novos encontros, a potência da diversidade e a situação de prática regular que este projeto propõe.

Foi então que, junto a um grupo de colaboradores que têm me acompanhado nos últimos anos, chegamos numa primeira resolução de um ambiente que chamamos de LOTE. Estes colaboradores não me acompanham feito alunos, ou aprendizes, estabelecemos uma relação que consegue borrar essa hierarquia, não porque queiramos que assim seja, mas porque assim é. Portanto, sou eu também que os acompanho. Nos retroalimentamos, nos contaminamos, e o que se torna mais relevante neste convívio é o desejo de criação. Uma vontade de gastar saliva e suor por aquilo que elaboramos entre nós. Não se trata de um acordo entre o meu e o do outro, ou do outro e o meu, se trata do entre. Uma outra margem desta relação eu-outro-eu-outro-ele-outro-eu-ele-outro-eu.

Os lotes #1 e #2 nos permitiu criar um ambiente experimental, um lugar para testar nossas habilidades, identificar nossas fragilidades e buscar transformações em nossas práticas individuais e coletivas. Priorizamos uma postura de pesquisa ao longo do projeto, e enquanto pesquisadores, buscamos evitar automatismos em nossas experiências nos diferentes estágios da residência, nas relações com os artistas interventores e colaboradores que atravessaram e contribuíram na construção deste ambiente chamado lote.

Além de identificar a transversalidade deste espaço que temos desenvolvido, percebemos ao longo destas experiências a importância de construir um lugar experimental. E, talvez, experimental seja a oportunidade de arriscarmos mais além do que já imaginávamos ser arriscado. Talvez experimentar tenha a ver com entusiasmo, com o desejo de produzir mais resíduos do que aderências. Mais opacidades do que iluminações.

São oportunidades como esta residência que me impulsionam a continuar construindo situações para pensar coletivamente, criar contextos, ambientes, projetos, utopias e encontros, que alucinem a minha dança e fractalize minhas coreografias.