Cristian Duarte : lote2

BioMashup
Tubo de Ensaio Bio
1mm | JAM 1mm
Ensaio Boom com Sheila Arêas
por quê...
Auto-Entrevista

- Bom dia?
- Bom dia.

- Como é realizar uma residência artística na sua própria cidade?
- É quase uma utopia. Tem a ver com a minha realidade profissional. Como eu não me configuro enquanto uma companhia de dança, o modelo que achei mais próximo das experiências que vivi, e do modo como trabalho, é o de residência artística, ou seja, permanecer provisoriamente em relação com locais e pessoas. Acho meio utópico porque normalmente residências artísticas são concebidas para uma imersão por tempo determinado em algum lugar diferente daquele que você está habituado, e esta não é a realidade desta residência, pois ela acontecesse onde eu vivo, e o tipo de imersão ganha outra intensidade quando se está em sua própria cidade, com sua rotina já bem estabelecida. Acredito que seja exatamente por isso que me jogo em projetos assim. Para me desestabilizar. Gerar outras rotinas, outros desejos.

- E o que se deseja com esta residência?
- Não se deseja uma única coisa. Esta residência não pretende acertar um alvo. Não se trata de uma linha reta para um objetivo específico. Um dos desejos consiste em estruturar um ambiente de criação compartilhado, um espaço-tempo de estudos e experimentação. Uma possibilidade de expansão dos próprios desejos. Acho que deseja-se desejar. Deseja-se engajamento, alteração química, mobilização, flexibilidade, performance, poesia, anarquia, riscos, enfim. Outro dia traduziram uma entrevista minha, e o meu “desejo” virou “sonho”. Me fez pensar que não temos mesmo controle sobre como podemos ser percebidos no mundo. Não apenas com palavras, mas com ações, como esta residência, por exemplo. Por isso tenho me esforçado em articular vocabulários que considero mais próximos da minha prática, e entender que, mesmo assim, posso ser coisas diferentes dependendo do contexto e da interlocução.

- Por isso dizem que sempre há perdas na tradução. Você se sentiu lesado?
- Não. Acho que me senti outra pessoa. E foi bom. Me fez lembrar dessa passagem do Manoel de Barros: "palavras que me aceitam como sou - eu não aceito".

- Me conta mais sobre o lote. Afinal, o que vocês fazem por lá?
- Eu buscava uma oportunidade para vivenciar um dia-a-dia onde pudesse encontrar com regularidade outros artistas, testar ideias, refletir sobre como fazemos, como treinamos. Assim como outros residentes, ainda me interesso pela criação de espetáculos/performances, e esta residência nos oferece condições estruturais para formular hipóteses neste sentido. O modo como se trabalha no lote depende da disciplina, engajamento e articulação de cada residente em compartilhar suas práticas, experimentações e momentos de abertura. O ambiente lote não é uma instituição que regula e promove sozinho. Não existe um ser chamado lote, entende? Neste ambiente, é preciso construir seus próprios dispositivos para gerar interlocução. Eu também sou um residente, e estou atento a isto. Meu papel, enquanto coordenador do projeto, diz respeito a providenciar as condições para que a residência aconteça e seja um estímulo para uma prática artística mais compartilhada. Não tenho a intenção de imprimir uma estética única, e nem servir de modelo para como se deve trabalhar. Porque na verdade, eu aprendo a trabalhar com todos. E, acredito que deve ser recíproco entre nós. Aprendemos entre. Aprendemos com a própria ativação deste ambiente chamado lote. E, também, essa distinção entre residente e coordenador é bastante turva.

- Você já fez anteriormente projetos assim. Existe alguma diferença neste novo momento?
- Acredito que tenha sido sempre assim comigo, desde o início da minha formação em dança, quando participei do processo de fundação do Estúdio e Cia. Nova Dança em São Paulo em 94. Naquela época, já era um tipo de residência, onde construíamos condições e ferramentas para praticar técnicas de dança, reflexão, convivência, formação de plateia, colaboração, produção. Posteriormente, até os dias de hoje, é através de residências que minha realidade enquanto artista se faz existir. Dentro dessa existência, tenho encontrado artistas com desejos parecidos e, juntos, experimentamos algumas plataformas de trabalho nesta direção, como a Desaba em parceria com Thelma Bonavita em São Paulo, e o campo A Piece...Together? em parceria com Paz Rojo, entre Espanha e Brasil. Em decorrência dessas duas últimas plataformas é que surgiu a continuidade desse estado residência com este projeto lote.

- E o quê há de comum nessas experiências em estado residência?
- O que sempre recorre é o entendimento de que, além de artista interessado em criar espetáculos, me interesso também por criar condições onde possa trabalhar com certa dignidade, e que seja algo inspirador e mutante, pois não me interesso tanto por estruturas cristalizadas. Preciso de "estruturas esponja", aquelas que vão ganhando forma pela troca com o ambiente. Como esponja de lavar louça, sabe?

- E porque convidar um grupo de artistas internacionais para o projeto, quando há inúmeros artistas na sua cidade, ou mesmo no Brasil?
- Eu prefiro não endossar esse entendimento de valorizar o estrangeiro como algo melhor do que está, ou se faz, aqui. Se produz conhecimento aqui, na Europa, na África, na Ásia, onde houver oxigênio. Eu não entendo a criação de conexões com artistas internacionais enquanto um processo colonizador. Me interesso por pessoas e não nacionalidades. A coisa comigo é mais crespa, mais mestiça. Dentro dos convidados para o lote#2, há também brasileiros. E se a gente entrar nesse papo mestiçagem, pode dar um samba enredo de escola de samba pra gringo cantar.

- Ok. Então, como se dão essas escolhas?
- No lote, todos os artistas convidados, são artistas com os quais eu mantenho relações profissionais. Os convites não são pautados por um pensamento celebridade, big names, best sellers. As escolhas se dão porque eu circulo em festivais, em outras residências, participo de projetos de outros artistas. Nessas oportunidades, novas e antigas conexões se estabelecem, e por vezes, projetos se cruzam, e desejos se materializam em contextos criados por ambas direções. Vem de lá pra cá, e daqui pra lá. O projeto lote permite ter recursos, através do programa de Fomento à Dança, da Secretaria Municipal de Cultura da cidade de São Paulo, para promover algum fluxo de lá pra cá, e faço com a naturalidade de quem vai daqui pra lá, com recursos de lá. O Thomas Lehmen, por exemplo, reencontrei em 2011 quando estive em uma residência na Universidade do Arizona - ASU. Ano passado, 2012, ele me abordou por e-mail sobre seu novo projeto artístico, no qual realizará períodos de residência no Brasil, e isso veio de encontro com o que estou realizando aqui com o lote, assim se cria uma primeira oportunidade de contato entre desejos e contextos, permeado por vários novos encontros com artistas da nossa cidade que poderão participar, conhecer outros modos de fazer, pensar, enfim, aquilo tudo que contém novos encontros.

- Você pode explicar um pouco como esse encontro-situação se dará?
- Posso pouco, porque ainda não experimentamos. Portanto, posso apenas fantasiar a respeito. Chamamos de "encontro-situação" justamente porque criamos esses momentos durante a residência onde, além do convidado, serão 14 residentes do projeto lote#2 e mais 10 participantes selecionados para este experimento. Será uma situação nova para todos, pois não haverá um histórico comum entre este grupo de pessoas. E chamo de experimento pela característica imprevisível dessa proposta.

- Por que escolher artistas que não são residentes do projeto para este encontro?
- Por apostar que os artistas que atravessarão a residência neste momento específico, poderão desestabilizar as relações internas entre os residentes, e gerar novas percepções sobre este ambiente residência que estamos construindo, que vai se (de)formando durante e não a priori. Como a metáfora esponja que citei anteriormente. O grupo de pessoas que se (de)formará nesse encontro-situação, vai praticar a precariedade dessa proposta situacionista, e tornar o blind date aparente, na esponja que desejar. Eu não tenho expectativas por formas especiais, originais, super duper! Iremos negociar juntos como propor e o que fazer, considerando que nos reuniremos por alguma curiosidade sobre o planeta do artista convidado.

- E por que apenas 3 dias? Na primeira edição deste projeto, o lote#1, foram laboratórios de 2 semanas, certo?
- Exatamente. A residência lote é mutante. Testamos um formato com o lote#1, agora outro, e futuramente muito provavelmente será outro. E por que 3 dias é pouco? Às vezes algumas horas valem mais que 1 mês ou um ano.... pensa !?

- E às vezes não vale nada.
- Acho que sempre vale.

- ...
- Mas então, neste lote#2 optei por destinar mais tempo aos encontros e práticas entre os residentes, para desenvolver nossas próprias tecnologias de trabalho, se sentir mais propositor, com mais autonomia. Os "encontros-situação" serão momentos mais pontuais. Acredito que funcionarão, também, como uma espécie de mediação entre o desejo deste grupo de residentes em cruzar com outros artistas aqui da nossa cidade em uma situação, onde saberemos tanto quanto eles sobre como estar em situação com um convidado.

- E como é o processo de seleção para os encontros-situação?
- As convocatórias do lote#2 são também um experimento para os residentes. Pensamos juntos que tipo de inscrição se aproxima do universo de cada artista convidado. Para este primeiro encontro, pensamos na ferramenta auto-entrevista, criada pela plataforma everybodystoolbox.net, enquanto um recurso para esta finalidade. Entendemos que essa ferramenta poderia explicitar o universo estético e referencial dos inscritos, suas motivações ou a falta de, dúvidas e questões atuais em relação às suas experiências artísticas. Disponibilizamos o link da plataforma na convocatória, para que os candidatos pudessem conhecer melhor a ferramenta, e a proposta deste open source, entendendo que a convocatória em si já é um exercício, ou um modo de se aproximar e se relacionar com esse campo de pesquisa.

- E qual foi o critério de seleção?
- Os critérios apareceram com as próprias inscrições. Observamos quem se colocou em exercício e se permitiu adentrar a experiência que a ferramenta propõe. Esta era a intenção inicial: a de promover uma experiência de partida, que se afastasse relativamente das cartas de motivação, biografias e currículos, dos formatos que já estamos habituados a ver, fazer e dar copy&paste. Ou seja, maior engajamento com a proposta e com seu desejo.

- E então, os inscritos jogaram?
- A maioria sim. Algumas auto-entrevistas nos surpreenderam por promover um deslocamento formal, sem perder de vista a proposta da ferramenta, outras pela formulação rigorosa de uma entrevista. Mas houveram desentendimentos, ou automatismos também. Recebemos alguns currículos, biografias e textos de motivação.

- E vocês chegaram no resultado?
- Sim. Uma seleção está sempre em contato com a subjetividade de quem escolhe, e portanto não há acertos e nem erros. Há um recorte. E neste caso, não havia um perfil único desejado. Procuramos analisar aqueles que se dedicaram à experiência proposta com maior intensidade, maior sensibilidade de apropriação e manipulação com a ferramenta. Recebemos 47 inscrições, que na sua maioria nos despertou interesse, mas tivemos que fazer um recorte para este momento. Estão previstos mais 05 encontros-situações até o final da residência. Nos próximos dias vamos lançar a convocatória para o próximo encontro com a artista Paz Rojo que acontecerá no final de março.

- E quando sai o resultado deste primeiro encontro?
- Os selecionados receberão um e-mail. Todos os inscritos também receberão um email específico, e todos receberão esta auto-entrevista.

- Ela é um modelo de como as auto-entrevistas deveriam ter sido feitas?
- Não, de forma alguma. Esta auto-entrevista não é um modelo. Foi um exercício que iniciei com a intenção de experimentar a ferramenta para pensar sobre minhas motivações, sobre a construção desse contexto lote#2. Mas, no decorrer dela, pensei que poderia ser uma boa devolutiva para esta situação seleção, utilizando a própria ferramenta escolhida para dar algumas impressões sobre esse contexto construído por artistas. E, exatamente porque ele é construído por artistas, e não instituições, toda essa fala contém uma série de dúvidas, daquelas de quem está experimentando, arriscando, e não, querendo acertar.

- Ok. Muito obrigado pela entrevista.
- De nada. Foi um prazer.


Auto-Entrevista
Cristian Duarte para o contexto da residência artística LOTE#2.
São Paulo, 19.02.2013

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