Bruno Freire : lote2

Bruno Freire

A Queda, compartilhamento de um estudo e suas referências.
A Bailarina, texto e performance.
Demo, esboço de projeto a ser desenvolvido sabe se lá quando.

Não existe residir em SP.

A qualquer momento podem te deixar fora de casa, sem lar, sem chão, sem fomento, podem te deixar sem o espaço que você construiu para ser sua casa, aqui tudo é provisório, até aquilo que você tinha de mais fixo, seu lar, seu marido, sua esposa, seus horários, seu espaço, seu animal de estimação, sua mesa de trabalho, seu livro na estante.
Aquela mesma casa que você cuidou, ajudou a erguer, pintou, raspou o piso, descascou a tinta da porta, limpou o vaso, arrumou o jardim, fez brinquedos para as crianças, fez barricada para o polícia não te tirar dali, arrumou esgoto, fez gambiarra, fez gato, passou rede elétrica, ou seja, cuidou como se fosse seu, só que na verdade nunca foi. Mas ainda resta uma esperança, porque esse lar ainda não é seu, mas talvez, quem sabe, um dia será, por direito. Mesmo convivendo com o medo, de um dia, sem nenhuma explicação, algum acidente acontecer e tudo se perder. O botijão de gás a qualquer momento pode estourar.
Quando esse momento chegar, se chegar, até quem não achava que tinha alguma coisa perderá, justamente, alguma coisa que nem sabia, mas tinha alguma coisa e, agora, não tem mais.
O trágico não vem a conta gotas (Guimarães Rosa).
Residir é resistir.
Quem não luta está morto – lê-se nas letras garrafais em vermelho na parede da ocupação Mauá, no espaço para reuniões do movimento dos sem teto. Um hotel ao lado da estação da luz, na rua Mauá, vivem mais de 300 famílias. Essa frase, estampada na parede como sangue, é um indício de que resistir é residir em SP. São famílias ocupadas em manter a moradia, um direito. Esse local que ainda está provisório, mas pretende-se definitivo, representa, para essas famílias, o que restou de alguma dignidade básica do direito a vida: a moradia. São pessoas ocupadas em ocupar o estatuto de ser humano. Basicamente, estão em busca de um simples direito: um endereço. Para se viver em SP é preciso morar, ter comprovante de moradia para, enfim, conseguir documentos, trabalhar, ir ao banco, etc. Desocupados são aqueles que se ocupam em tirar o direito dessas pessoas existirem. Falta do que fazer.
O medo de que a qualquer momento isso tudo pode acabar, faz a vida girar ao redor de uma luta constante. Uma sensação de que a batalha não termina nunca. Uma notícia trágica. 04 dias antes de completarem 5 anos de ocupação, próximo do dia em que daria a essas famílias o direito de gozar a posse dessa imensa morada, o proprietário entrou na justiça solicitando a desocupação das famílias. Pane. Pânico. Medo. Mesmo com o proprietário devendo IPTU desde a década de 80, com uma dívida de bilhões, o juiz e a lei dão ao proprietário um direito perverso de solicitar a posse do prédio e retirar as 300 famílias que ali moram. Após muita luta, reuniões, discussões e negociações, esse perigo passou. Um sinal de alívio. Ufa. Mesmo após 5 anos, ainda não conquistaram o direito total de posse. Mas continuam ali: resistindo para continuar a residir.
Quando você entra na Ocupação Mauá, logo você notará o cuidado com que será recebido. Um cuidado com a fachada do prédio, com a roupa que te recebem, com o perfume, com as cadeiras na sala. E, por favor não reparem na bagunça, afinal estão te recebendo com carinho, como se cada visitante fosse na verdade a possibilidade de ampliar a rede de pessoas que conhecem e respeitam a causa dessa grande família. Todos serão bem recebidos, porque todos precisam reconhecer que nessa imensa casa se habitam trabalhadores e famílias ocupadas em viver com qualidade e dignidade. Respeito.
- Com licença, aquilo ali na árvore é um sutiã?
- Ah! Caiu da janela provavelmente. Claro, essa árvore não dá sutiãs.
Difícil não notar que certas coisas não estão no seu local esperado. Um sutiã ali, pode não estar sendo utilizado para suportar os seios de uma mulher, mas está sustentando a copa de uma árvore. Ali, os objetos perdem suas funções habituais. Ganham novos status. Re-significam, como na arte.
Aqui não se mora sozinho nunca, se mora com uma legião. Não se trata de um coletivo, nem de grupo, muito menos companhia, mas uma legião de sujeitos, solitários. Eles não tem necessariamente nada em comum, apenas o fato de que precisam de um teto e, por isso, dividem o mesmo teto, separado por finas paredes. Respeitam as mesmas regras, convivem, algumas brigas de casal são discutidas no coletivo, espancamentos e violências domésticas não são toleradas, tem limite para tudo e você pode ser convidado a se retirar. Não traficam, nem consomem drogas ali dentro. Co-habitam um mesmo espaço. Vivem e deixam viver. O medo paira no ar. Mas estão aqui tempo suficiente para saber que devem permanecer juntos por mais algum tempo. Não se sabe quanto, nem como, nem por onde, mas se mantêm na luta.
Eis que toda essa imagem se mistura ao Lote#2. Observando o outro e a nós mesmos, mesmo que por alguns instantes, esse outro que aqui é a habitação da Rua Mauá, existem conexões, justamente, de alguns problemas e enfrentamentos que nos unem. Uma luta, uma necessidade, uma aprendizagem, uma co-habitação! A construção provisória de um projeto em comum que continue existindo e sobrevivendo no tempo.
Residir em SP é difícil.
Mas essas histórias me fazem acreditar de que existe resistir em SP.
Na Ocupação Mauá não existe opção, ou você luta, ou você luta. Só não luta quem morreu. Por isso, os dizeres: quem não luta está morto. A condição de quem vive é lutar para continuar vivo e residindo na ocupação Mauá.
Um artista em SP que está esgotado, sem energia, sem possibilidade de acreditar, de lutar, sem possibilidade de criar mais alguma coisa brilhante para esse semestre, mais um novo espetáculo, é porque está morto, anestesiado, parado, sem criatividade, sem trabalho. Por outro lado, o Lote#2 me deu a chance de me deixar morrer. As vezes é preciso morrer para re-viver. É sábio. Morrer, se retirar, re-aprender e buscar novas fontes para continuar. O lote#2 é um espaço de convivência, um local de estudo, um retiro. Um período de recuperação física, emocional e artística. Re-erguer o corpo, re-erguer a casa e re-erguer-se na e com a comunidade.

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