BioMashup : lote2

Em sua primeira fase de pesquisa e criação BioMashup* teve como ponto de partida o solo The Hot One Hundred Choreographers (2011)** e o interesse em desdobrá-lo, conceitualmente e cenicamente, em colaboração com um grupo de performers, outros caminhos e bibliotecas do corpo em movimento através de um processo de contaminação orientado para uma dança (de)compositiva. BioMashup pode ser tomado também como um convite à contemplação, uma experiência de observação enquanto uma palpação do/com o olhar.

Me interessa a dança e a fisicalidade construídas através do movimento gerenciado pela especificidade, precisão e detalhe, por uma concentração e engajamento hábil. Proponho nesta criação uma abordagem performativa pautada por uma investigação de presença manifestando disponibilidade em uma atividade de organização e/ou aproximações de conteúdos.

Virtuosismo é entendido nesta pesquisa-criação como alongamento de ondas de tempo, de controle e atenção. Percepção enquanto ação e suas possibilidades de prolongamento e intensificação. Repetições entendidas enquanto partículas únicas - mais do mesmo e não outra vez. Um processo de providenciar diferentes ângulos e pontos de vista de uma mesma ação.

Uma jornada de disponibilização entre bibliotecas de corpos e suas memórias, em um processo de ativação e contaminação construídos em conjunto com uma trilha sonora composta e executada ao vivo simultaneamente a performance, com o instrumento Theremin - onde o som é produzido por acordos sensoriais, sem que seja necessário tocar no instrumento.

Finalmente, pretende-se lidar com a dança como uma manifestação de processos de pensamento – um raciocínio do corpo em movimento - e não como conhecimento adquirido para transmitir um tema, ou para representar outra coisa que não seja o próprio fazer, a própria ação, a própria dança. “I have nothing to say - and I’m saying it - and that is poetry, as I need it”. John Cage

Tem-se também em mente, como alicerce ao longo desta odisseia, a hipótese de que "a dança é o que impede o movimento de morrer de clichê", levantada pela crítica de dança Helena Katz em sua tese - Um, dois, três. A dança é o pensamento do corpo. Para impedir que algo morra, deve-se identificar o que está matando-o, portanto, é necessário atravessar os clichés.

Em resumo, a pesquisa-criação de BioMashup poderia ser introduzida provisoriamente como uma odisseia cinética, ou um concerto sobre variedades de presença em movimento.

* BIO – neste projeto abrevia “biografia” e faz um trocadilho relacionado ao termo inglês “bio” = orgânico – que na biologia relaciona-se a processos ligados à vida e na agricultura, à alimentos livres de substâncias sintéticas. MASHUP – é um termo usado em música, que significa criar a partir de sobreposições de outras músicas já existentes. Não cabe dentro deste sistema “certezas” e “purezas”. Em sua primeira fase de pesquisa-criação (fevereiro-junho de 2013) BioMashup foi subsidiado pelo Programa Rumos Itaú Cultural Dança 2012/14, com o apoio da Residência Artística LOTE#2 em colaboração com a Casa do Povo via 13º Programa de Fomento à Dança para a cidade de São Paulo.

** “Em The Hot One Hundred Choreographers, o bailarino Cristian Duarte expõe a multiplicidade de coreógrafos que marcaram o seu percurso. Sua dança os une, para além de empréstimos e técnicas, e desperta os fantasmas que habitam um corpo-paisagem.

Mas do quê, então, um corpo é feito? De osso, carne e órgãos? A dança existe, talvez, para tocar o corpo como um arranjo de memória, produzidas por experiências de vida. Em The Hot One Hundred Choreographers - Os cem coreógrafos "Hot", Cristian Duarte aborda cem performances ou coreógrafos que influenciaram seu percurso artístico. Para este dançarino contemporâneo brasileiro, não significa expor um catálogo de trechos selecionados. E para seu público, não se trata de verificar o seu nível de cultura, reconhecendo essa ou aquela referência. Em vez disso, afeta a circulação na memória de um corpo, ele próprio diretório de si mesmo, pela plasticidade do que se passa por aqui, ali, responde, encoberta-se, perfura-se ou desenrola-se, em diferentes distorções, acordos provisórios em deslocamentos discretos. Todo o conhecimento sensível, feito de experiência em primeiro lugar, e nada linear. Felizmente”. Escrito por Gérard Mayen.

Ficha Técnica Fase 1:
Concepção e Direção: Cristian Duarte
Pesquisa e Criação: Alexandre Magno, Aline Bonamin, Bruno Freire, Clarice Lima, Cristian Duarte, Felipe Stocco, Leandro Berton, Patrícia Árabe, Sheila Arêas e Tom Monteiro.
Performance: Alexandre Magno, Aline Bonamin, Clarice Lima, Felipe Stocco, Leandro Berton e Patrícia Árabe.
Colaboradora/Assistência de Direção: Sheila Arêas
Criação e performance sonora: Tom Monteiro
Fotografia: Carolina Mendonça
Subsídio: Programa Rumos Itaú Cultural Dança 2012/14.
Apoio: residência artística LOTE#2 e Casa do Povo, 13º Programa de Fomento à Dança para a cidade de São Paulo e Onitsuka Tiger.
Agradecimento: Rodrigo Andreolli, Júlia Rocha, Tarina Quelho e toda equipe da Casa do Povo.

Em busca de recursos para montagem e estreia em 2014.

bioflaiér

http://www.dois.lote24hs.net/files/gimgs/142_biomashup-menorcristian-duartefotocarolina-mendonca.jpg
foto: Carolina Mendonça